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Em tempos de escassez, LGE se consolida no combate a grandes incêndios

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Por Lailson Nascimento

Eu nasci de novo”. A expressão é do empresário Geraldo Denardi, de 56 anos, e foi dada durante entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo. Ele faz parte de um grupo de seis sobreviventes de um acidente aéreo ocorrido na noite do dia 29 de julho de 2018, no aeroporto Campo de Marte, em São Paulo. Embora não seja especialista no assunto, ele reconhece que a atuação rápida dos bombeiros da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) foi fundamental para a sua sobrevivência: “Mais 20 segundos que eles demorassem não sobraria ninguém, porque nós teríamos todos inalado fumaça tóxica e o fogo iria consumir tudo”.

A velocidade da brigada realmente foi determinante para a sobrevivência das seis pessoas, como explica o chefe dos bombeiros da Infraero no aeroporto Campo de Marte, Fábio Romero. “Nós chegamos ao local do acidente 20 segundos após a queda e, com a primeira atuação, controlamos o fogo em cerca de um minuto, tanto que as vítimas que sobreviveram conseguiram sair da aeronave aproximadamente 1 minuto e 20 segundos depois do acidente”.

A rapidez da ocorrência, entretanto, não adiantaria se a equipe não tivesse à disposição o Líquido Gerador de Espuma (LGE). Considerado como agente principal no combate a incêndios onde há combustíveis líquidos, o concentrado é um agente extintor de alta eficiência. Dividido em três classes, sendo cada uma para a sua aplicação específica, o LGE é um produto de tecnologia e qualidade de ponta, que já está consolidado no mercado consumidor do país e em constante desenvolvimento.

Evolução do produto
Utilizado no combate a incêndios em instalações com alto grau de risco tais como aeroportos, navios, refinarias, indústrias de petróleo, petroquímicas e químicas, usinas de álcool e distribuidoras de combustíveis. O LGE é um produto com longo histórico evolutivo, conforme explica o coronel Nilton D’Addio, do Núcleo de Pesquisa da Memória do Corpo de Bombeiros de São Paulo (CB).

“Sucederam as espumas químicas. Quando chequei no CB, em 1968, usava-se o LGE de origem proteica, que era feito a partir da decomposição de proteína animal. Era fedorento, corrosivo, caro e de pouca durabilidade. Nessa mesma época começam a aparecer no mercado os produtos tutogen e espirol, e daí para frente há uma constante evolução. Com o início da produção de álcool, por volta dos anos 1976, começam a surgir no mercado os LGE compatíveis”, relembra.

O produto de origem proteica do qual D’Addio se refere teria aparecido na década de 1940, quando foi desenvolvido um concentrado à base de proteína líquida que, misturada com água em bocal de proporção ou aeração, formava bolhas de ar. Esse componente, entretanto, era facilmente contaminado por líquidos inflamáveis.

Na década de 1960 surgiu a espuma fluoroproteínica, cujo agente ativo era um surfactante fluorado que fornecia uma propriedade de rejeição de óleo para evitar a contaminação. “Em geral, melhor do que a proteica, porque sua vida útil mais longa proporciona melhor segurança quando a entrada é necessária para o resgate”, considera Humberto Brotto Lopes, coordenador de produção e qualidade da empresa Bucka Indústria e Comércio.

Na escala de evolução do LGE aparece também a espuma aquosa formadora de filme (AFFF). Sintética com uma baixa viscosidade e espalha-se rapidamente pela superfície da maioria dos combustíveis de hidrocarbonetos. “Um filme de água se forma sob a espuma, que esfria o combustível líquido, impedindo a formação de vapores inflamáveis. Isso é um fator importante no combate a incêndios em colisões”, complementa Lopes.

Por fim surgiria um composto sintético voltado para combate a incêndios em materiais hidrocarbonetos e solventes polares. Os solventes polares são líquidos combustíveis que destroem a espuma convencional de combate a incêndios. Esses solventes extraem a água contida na espuma, quebrando sua manta, sendo resistentes ao álcool ou ao solvente polar.

Aplicabilidade do LGE
Depois de 20 segundos após o choque do bimotor contra a pista de pouso, provocando explosão e fogo, a equipe chefiada por Fábio Romero já estava atuando. “No primeiro minuto de combate ao incêndio nós despejamos aproximadamente 60 mil litros de espuma de baixa expansão na aeronave. Neste período conseguimos controlar o fogo e resfriar a fuselagem, onde as vítimas estavam”, explica.

Daí em diante o trabalho foi intenso, inclusive com o apoio de equipes do Corpo de Bombeiros Militar. Durante toda a ocorrência foram utilizados aproximadamente 34,2 mil litros de água e 1,2 mil litros de LGE – ambos necessários para a produção da solução -, resultando em mais de 700 mil litros de espuma aplicada na aeronave.

Enquanto continha o fogo e resfriava a fuselagem, a espuma criou a rota de fuga utilizada para a saída segura dos primeiros cinco sobreviventes, além de manter em segurança outro passageiro que ficou na aeronave por cerca de quarenta minutos, como acrescenta Romero. “A espuma foi fundamental, pois ‘envelopou’ a parte do vazamento e impediu que o calor chegasse às outras duas vítimas. Se não houvesse esse ‘envelopamento’, com certeza o passageiro não sobreviveria. Portanto, o fator refratário da substância é muito importante no combate a incêndios na aviação civil”.

Segmentação
Há três classes de líquidos geradores de espuma, conforme explica o diretor do laboratório de ensaios e análises Firemetria e coordenador da comissão de estudo de LGE da ABNT/CB-24, Mauricio Feres. Cada classe é apropriada para uma aplicação específica. O HC é voltado para a extinção de incêndios em hidrocarbonetos, o AR para a extinção de incêndios em solventes polares e o AV em aeroportos.

Feres ressalta que um combate bem-sucedido depende de uma série de fatores, entre eles a questão da classe. “Se iniciarmos a aplicação de espuma 6% com um proporcionador 3%, a espuma gerada não será eficaz para extinguir o fogo, causando desperdício. Um LGE tipo 1 (classe HC) não terá efeito no combate às chamas em solventes polares, como etanol”.

O chefe dos bombeiros no Campo de Marte também deu exemplo da aplicabilidade do LGE em ocorrências como a que envolveu a aeronave. Segundo ele, a espuma gerada pelo LGE classe AV possui maior poder de extinção do fogo.

“O LGE é o nosso agente principal. Há também o bicarbonato de sódio, ou pó químico seco dos extintores, que é o agente secundário. A diferença entre a espuma e o pó seco é que a primeira forma um filme aquoso, isola o material combustível e cria uma camada artificial onde você pode entrar com resgate. Já o pó químico tem a ação através do isolamento do oxigênio. Se usássemos o pó químico na ocorrência do avião bimotor, por exemplo, não haveria oxigênio no local e, sem ele, as duas vítimas que permaneceram na aeronave por 40 minutos morreriam asfixiadas”, acrescenta Fábio Romero.

Padronização de qualidade
Também faz parte da evolução do LGE a normatização do produto. Considerada pelos especialistas como o que há de mais moderno e recomendado na elaboração de normas técnicas de produtos, a ABNT NBR 15511 foi instituída há 10 anos e segue sendo a principal referência de padrão de qualidade para os fabricantes do LGE, além de parâmetro de segurança para os consumidores.

De acordo com a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), a NBR 15511 surgiu por conta da necessidade de união entre as várias especificações e normas que eram consideradas anteriormente a 2008. A assistente técnica da associação, Thays de Souza Almeida, explica que a norma substituiu todas as outras, padronizando o mercado de líquido gerador de espuma. “Sem esta norma seria praticamente impossível implementar um programa de certificação de LGE e o consumidor ficaria muito vulnerável”.

lge info
Para Humberto Lopes, coordenador de produção e qualidade da empresa Bucka, a norma atende todas as expectativas e necessidades do mercado atual. Segundo ele, a elaboração da NBR 15511 foi baseada nas normas Petrobrás N-2142, NFPA 11, ICAO Doc 9137, MIL-F24385 e ISO 7203, agregando o que há de mais avançado no mundo em termos de requisitos de LGE. “Esta norma está inserida nas instruções técnicas do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo e nas normas de sistemas de combate a incêndio por espuma ABNT NBR 12615 e ABNT NBR 17505, auxiliando ainda mais na exigência de atendimento aos requisitos normativos”, acrescenta.

O LGE é um produto de certificação voluntária, o que não compromete a exigência do mercado consumidor, na opinião de Lopes. “Quem utiliza o produto compreende que este é um item essencial para o sistema de proteção contra incêndios e exige dos fabricantes a certificação. Não há garantia de atendimento à norma se o produto for adquirido de fabricantes ou importadores que não possuem certificação”, considera.

Vantagens da certificação
Atualmente a ABNT é o único organismo acreditado pelo Inmetro para certificar LGE. Dentre outros aspectos, a NBR 15511 exige a realização de ensaios periódicos, pois o fato do produto ficar armazenado em tanques, viaturas e embalagens pode deteriorar e alterar as suas propriedades, inclusive a sua capacidade de extinção de incêndios.

Segundo a ABNT, o ponto positivo da norma é o foco no desempenho, pois, “para ser aprovado, o LGE necessita passa pelo ensaio de fogo que comprova a sua eficácia em termos de velocidade de extinção e resistência à reignição”.

Mauricio Feres, diretor do laboratório de ensaios e análises Firemetria e coordenador da comissão de estudo de LGE da ABNT/CB-24, acrescenta que o Corpo de Bombeiros e os órgãos ambientais estão exigindo relatórios de ensaio de LGE, o que aumenta a confiabilidade do produto. “Na eventualidade de um sinistro envolvendo vítimas e danos ao meio ambiente, as autoridades e a Justiça podem requerer um laudo técnico pericial. O perito, a seguradora e o juiz podem atribuir ao controle periódico inadequado os motivos para a duração do sinistro. Lembrando ainda das multas milionárias por danos ao meio ambiente”.

Outra vantagem da norma citada pelo especialista foi a eliminação do prazo de validade do produto. “Enquanto o LGE for aprovado neste ensaio, ele pode permanecer em uso, independentemente de sua data de fabricação. Desta forma, quando é fabricado com qualidade e bem guardado pode ter uma vida útil superior a 15 ou 30 anos. Isto é vantajoso não somente pela questão econômica, mas também pela questão ambiental, por não haver um descarte desnecessário e nova aquisição”.

 

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